Otite de Repetição em Criança

Otite de repetição em criança

Otites de repetição nada mais é que o quadro repetitivo de otites médias agudas. A otite média aguda geralmente é uma complicação do resfriado, por esse motivo é muito mais frequente nos primeiros anos de vida da criança. Durante o resfriado, uma combinação de fatores pode levar a uma otite média aguda: a secreção nasal pode “subir” para a orelha média pela tuba auditiva, a própria orelha média produz secreção que pode estar em quantidade aumentada e nas crianças não é infrequente o funcionamento da tuba auditiva ser ineficaz, além de seu formato e inclinação favorecerem o acúmulo de secreção nessa fase da vida. Todos esses fatores em crianças com sistema imunológico em desenvolvimento e no início da vida escolar e temos uma alta incidência das otites na faixa etária pediátrica.

Otite de repetição em bebê

No bebê, a otite costuma se manifestar com febre, irritação e queda da aceitação dos alimentos e das mamadas. É comum a mãe me dizer no consultório que o bebê passou a noite chorando, não pegou o peito direito e estava agitado o tempo todo — esse é, muitas vezes, o quadro que faz a família procurar atendimento.


O que acontece, no detalhe: a tuba auditiva da criança é mais horizontal, então a passagem do catarro do nariz para a orelha média acontece com facilidade. Esse catarro faz pressão dentro da orelha, empurra o tímpano para fora e causa distensão, dor e febre. A principal causa da otite é o resfriado — e a principal causa da otite de repetição é, naturalmente, o resfriado de repetição.

Por isso, o aleitamento materno faz tanta diferença: ele transfere anticorpos que ajudam a criança a se proteger dos vírus respiratórios mais comuns nos primeiros meses de vida.

Por que a otite de repetição é tão comum no primeiro ano de vida?

A Sociedade Brasileira de Pediatria resume bem o motivo: as três principais razões são a imaturidade imunológica própria da faixa etária, o grande número de resfriados que a criança desenvolve quando começa a frequentar creches e, principalmente, a imaturidade anátomo-funcional da tuba auditiva. Como ela é curta, horizontalizada e flácida nessa idade, secreções do nariz entram com facilidade na orelha média.

Causas da otite de repetição

Além da faixa etária, os principais fatores de risco para o desenvolvimento de otites médias são:

  1. 1. Resfriados frequentes (causa de longe a mais importante).
  2. 2. Frequência a creches e escolas.
  3. 3. Exposição à fumaça de cigarro em casa.
  4. 4. Hipertrofia adenoideana.
  5. 5. Quadros alérgicos não controlados (rinite, sinusite).

Crianças que apresentam três ou mais episódios de otite média em seis meses, ou quatro ou mais episódios no período de um ano, precisam de investigação e acompanhamento especializado. Esse é o critério que usamos no consultório para definir o que chamamos de otite de repetição — e a partir dele a conduta deixa de ser reativa e passa a ser planejada.

otite de repetição em criança

Toda otite na criança precisa de antibiótico?

Não. Esse é um ponto que mexe muito com as famílias — entendo, porque por muitos anos a orientação foi “deu otite, deu antibiótico”. Mas o que as diretrizes mais recentes mostram, inclusive a da Sociedade Brasileira de Pediatria e a da Academia Americana de Pediatria (AAP), é que em torno de 80% das crianças com otite média aguda não complicada melhoram sozinhas, mesmo sem antibiótico, se acompanhadas adequadamente.

Isso vale, com critério, para crianças acima de 2 anos, em bom estado geral, com apresentação unilateral, sem otorreia (sem secreção saindo do ouvido). Nesses casos, o que as diretrizes orientam é a chamada conduta expectante: analgésico para a dor e a febre, e reavaliação em 48 a 72 horas. Se a criança piorar ou não melhorar nesse período, aí sim entra o antibiótico.

O antibiótico imediato segue sendo recomendado em situações específicas — bebês abaixo de 6 meses, crianças com dor importante e febre acima de 39°C, abaulamento bilateral em menores de 2 anos e qualquer quadro com otorreia mucopurulenta de início agudo. Para o restante, conversamos com a família e definimos o caminho juntos.

Monitoramento digital: como ajudamos a evitar antibiótico desnecessário

E aqui entra uma parte da prática que, para mim, transformou a maneira de cuidar dessas crianças com otite de repetição. Porque, na teoria, reavaliar em 48 ou 72 horas parece simples. Na vida real, não é.

Imagine uma sala de espera de pronto-socorro: se metade dos pacientes pedisse reavaliação em 48 horas, seria inviável. E mesmo no consultório, a logística nem sempre fecha. Às vezes a criança passa comigo hoje e, daqui a dois dias, eu estou o dia inteiro em cirurgia, em curso, num feriado, ou numa apresentação da minha filha na escola. A família vive seu próprio dia também — trabalho, escola, irmão menor em casa. E o resultado, muitas vezes, é uma reavaliação que não acontece — ou que acontece tarde, quando o quadro já piorou.


É aí que a tecnologia ajuda. Para casos selecionados de criança colaborativa, sem cerúmen no canal e com pais ou responsáveis capazes de aprender a manusear um exame simples, eu disponibilizo um otoscópio digital e ensino, ainda na consulta, como utilizá-lo. Gravamos a imagem da orelha como base no momento do diagnóstico, e isso vira a referência para reavaliações remotas.

Como esse seguimento funciona, na prática:

  1. 1. Confirmo o diagnóstico de otite média aguda no consultório e oriento conduta expectante (ou antibiótico, conforme o caso).
  2. 2. Mostro à família como posicionar o otoscópio digital e capturar uma boa imagem da orelha. Treinamos juntos até a captação ficar clara.
  3. 3. Gravo a imagem inicial — ela vira nossa fotografia de partida.
  4. 4. Em 48 a 72 horas, os pais enviam uma nova imagem. Comparo as duas, avalio a evolução do abaulamento e da hiperemia e oriento a próxima conduta.
  5. 5. Se houver qualquer sinal de complicação, o retorno presencial é imediato.

O ganho é duplo. Menos deslocamento para a família e, principalmente, um seguimento muito mais próximo — exatamente como a diretriz pede, só que viável dentro da vida real. E há um ponto que eu reforço sempre nas crianças com otite de repetição: quando elas entram em um antibiótico e saem em outro, sem que ninguém examine o tímpano no fim do tratamento, fica difícil saber se a otite realmente resolveu. O padrão-ouro é examinar ao fim do antibiótico e, idealmente, mais uma vez 14 dias depois. A logística disso, em consultório presencial, é complicada. Com o monitoramento digital em casa, fica viável.

Como funciona o otoscópio digital em casa?

É um dispositivo pequeno, com luz e câmera, que se conecta ao celular. Não é invasivo: a ponta entra apenas no início do canal auditivo externo, exatamente como o otoscópio que usamos no consultório. A família aprende na consulta, sob minha supervisão, e leva o equipamento por empréstimo nos casos em que faz sentido. Nem toda criança e nem toda família são candidatas — eu seleciono caso a caso, sempre conversando.

Quando a otite afeta a audição e a fala

As otites recorrentes em bebês ou crianças levam a períodos de flutuação da audição — e isso me preocupa muito como especialista em otorrinopediatria. A criança que não escuta bem em um momento crucial da vida coloca em risco o desenvolvimento das vias cerebrais responsáveis pela comunicação e pela linguagem.

Existe ainda uma situação que merece atenção especial: é frequente permanecer catarro na orelha média mesmo sem sinais clínicos de otite, condição conhecida como otite média com efusão. São as otites “silenciosas”. Não doem, não dão febre, passam despercebidas — mas afetam a audição. E podem repercutir tanto na aquisição da fala quanto no período da alfabetização, gerando sofrimento para a criança e para a família.

Por isso, mesmo nos períodos em que a criança parece bem, vale uma avaliação atenta — especialmente naqueles bebês e crianças pequenas que tiveram vários episódios de otite no ano. O acompanhamento audiológico, quando indicado, ajuda muito a entender o tamanho do impacto.

Otite de repetição pode causar atraso na fala?

Pode, sim — quando o acúmulo de secreção é persistente e a audição flutua por longos períodos. A criança aprende a falar imitando o que ouve. Se o som chega abafado durante meses, o aprendizado da fala fica mais difícil. Por isso, em qualquer cenário de otites de repetição que se prolonga, eu peço avaliação audiológica e acompanho de perto a evolução da linguagem.

Tratamentos da otite de repetição

“Doutora, meu filho tem otite de repetição. Como tratar? Como eu previno?” Essa é, talvez, a pergunta que mais me fazem no consultório.

A resposta começa pelo óbvio: diminuir a quantidade de resfriados ajuda — mas nem sempre está no nosso controle. Por isso, o tratamento ataca em várias frentes ao mesmo tempo.

Quando a criança tem três otites em seis meses ou quatro em um ano, e quando o quadro segue se repetindo apesar do tratamento clínico bem feito, ela passa a ser candidata ao tratamento cirúrgico da otite de repetição. Eu costumo explicar para os pais que o objetivo da cirurgia não é evitar que a criança fique resfriada — isso ninguém consegue garantir. O objetivo é evitar as consequências da otite: o uso repetido de antibióticos por via oral e a perda auditiva associada.


O raciocínio que repito com as famílias é simples: não tem como uma criança escutar bem com catarro atrás do tímpano. O tímpano precisa vibrar para a audição funcionar, e se ele está engrossado por secreção, ele vibra menos.

O que fazemos, então? Colocamos um dreno no ouvido, chamado também de tubo de ventilação ou carretel. É um procedimento rápido, em centro cirúrgico, em que fazemos uma pequena abertura no tímpano e encaixamos um tubinho. Esse tubo permite que o catarro saia e que o ar entre, ventilando a orelha média.

O dreno fica alojado no tímpano por alguns meses e, com o crescimento natural da criança e a renovação da pele do tímpano, costuma cair sozinho. Enquanto ele está colocado, no próximo resfriado em que a criança tenha secreção no ouvido, esse catarro não fica preso. Se houver alguma infecção, conseguimos tratar com antibiótico tópico, em gotas, pingando no ouvido — sem precisar tomar antibiótico por via oral. E a perda auditiva associada se resolve rapidamente, porque o catarro drena.

O dreno fica para sempre no ouvido?

Não. O tubinho é desenhado para ficar alojado por alguns meses. À medida que o tímpano se renova — e ele renova naturalmente —, o dreno costuma se desprender e sair sozinho. Em alguns casos, é necessário retirá-lo em consultório, num procedimento simples. Mas a regra geral é: o dreno é uma solução temporária, pensada para proteger a audição da criança no período em que ela mais precisa.

Prevenção da otite de repetição

Existem medidas com boa evidência científica que reduzem o número de otites de repetição. As que sempre converso com as famílias no consultório, baseadas nas orientações da SBP e da literatura internacional:

  • Vacinação antipneumocócica — tomada em três doses no primeiro ano de vida, reduz consistentemente o número de otites, de visitas médicas e de cirurgias para colocação de tubos de ventilação. Disponível no SUS.
  • Aleitamento materno — protege contra os vírus respiratórios mais comuns e, indiretamente, contra a otite.
  • Evitar exposição à fumaça de cigarro em casa, especialmente a fumaça da mãe próxima ao bebê.
  • Restringir o uso de chupeta — uso eventual e, idealmente, apenas nas horas de sono.
  • Creches com turmas menores sempre que possível.
  • Tratar alergias respiratórias ativas (rinite, sinusite), porque a inflamação nasal alimenta a inflamação da orelha média.

Hoje, o caminho da prevenção passa muito mais por vacinação, ambiente e tratamento dos fatores de base do que por medicação contínua.

O que costumo dizer aos pais no fim da consulta

Existe uma cena que se repete muito no meu consultório. Os pais entram cansados — alguns de noite mal dormida, outros do peso de ter visto o filho com dor mais vezes do que gostariam. Sentam, e quase sempre vem a mesma frase: “doutora, a gente não aguenta mais antibiótico nessa criança”. Eu entendo. E quero dizer, com calma, que existe um plano possível — que começa por entender o padrão da criança, examinar bem, e usar todas as ferramentas que temos hoje: a avaliação audiológica, o monitoramento digital quando faz sentido, o tratamento das alergias de base, a vacinação em dia e, quando indicado, o dreno de ventilação.

Nenhuma criança opera porque “tem que operar”. Cada decisão é construída junto com a família, em ritmo próprio, com tempo de explicação e espaço para perguntas. Otite de repetição é, na maior parte dos casos, uma fase — e uma fase que se acompanha bem com olhar atento e conduta personalizada.

Milene Bissoli
OTORRINO PARTICULAR
Dra. Milene
Bissoli
 
Otorrino particular em São Paulo com atendimento personalizado, em moderna clínica no bairro de Perdizes e Higienópolis.
  • Graduação, Especialização e Doutorado em Otorrinolaringologia pela USP
  • Membro da Academia Brasileira de Otorrino Pediátrica
  • Pesquisadora do “Centre for Stem Cell Biology” da Universidade de Sheffield, Reino Unido
  • Estágio no "Eye and Ear Hospital", Boston, EUA
  • Albert Einstein
  • Hospital Sabará
  • Hospital Sírio Libanês
  • Hospital Samaritano
  • IAPO
  • Aborl
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Tatiana Assunção
Tatiana Assunção
05/09/2023
Dra Milene é uma profissional humana, competente e atenciosa; explicou as possibilidades de tratamento de forma clara e tranquila. Ela é a otorrino de toda a minha família. Além disso, a clínica é confortável e as pessoas da recepção são muito educadas. Recomendo!
Isabel cristina souza
Isabel cristina souza
31/08/2023
Ótima experiência a dra. Milene é atenciosa, competente e ética!
Virginia Camargo
Virginia Camargo
21/08/2023
Excelente clínica, ambiente muito agradável e confortante, as recepcionistas são ótimas, muito gentis e prestativas. Dra. Milene tem me dado um suporte maravilhoso, médica muito profissional e humanizada além de ser clara e objetiva em todas as informações e procedimentos prestados. Senti muita segurança e confiança em meu tratamento que ainda segue em continuidade!
Paulo Tostes
Paulo Tostes
10/08/2023
Excelente
Nani Negrelli
Nani Negrelli
07/08/2023
Atendimento excelente e diferenciado! Raridade nos dias de hoje, uma médica que sabe ouvir as queixas do paciente e da família!
Melissa Toro Alvarez
Melissa Toro Alvarez
18/07/2023
Profissional ótima. Muito paciente, amable e dedicada. Eu a minha filha ficamos muito satisfeitas com tudo.
Edu Yamamoto
Edu Yamamoto
16/06/2023
Excelente! Atenciosa, paciente, simpática, atualizada, sábia em ótimos espaços e infra.
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