Por Dra. Milene Massucci Bissoli — CRM 125007 SP | RQE 57203
Otorrinolaringologista | Otorrinopediatria e Foniatria
Dor de ouvido em crianças: o que fazer em casa e quando correr ao médico. Dor de ouvido em crianças costuma aparecer de madrugada. É quase uma regra. A criança acorda chorando, leva a mão ao ouvido, e os pais ficam ali, no escuro, sem saber se é hora de ir ao pronto-socorro ou se podem esperar até o dia seguinte. Eu entendo esse desespero — atendo famílias nessa situação toda semana, e sei que poucas coisas angustiam tanto quanto ver um filho com dor e não saber o que fazer.
Por isso escrevi este texto com o cuidado de quem está sentada na sua frente, no consultório, com tempo para explicar cada detalhe. Vou contar o que funciona de verdade para aliviar a dor, o que vocês devem evitar mesmo que a internet sugira, e — principalmente — os sinais que indicam que a criança precisa de atendimento médico sem esperar. Meu objetivo é que vocês terminem de ler e se sintam seguros para agir, seja qual for o cenário.
Por que a dor de ouvido é tão comum em crianças
A dor de ouvido é uma das queixas mais frequentes na infância por uma razão anatômica que os pais nem imaginam. A tuba auditiva — o canalzinho que conecta o ouvido médio ao fundo do nariz — na criança é mais curta, mais horizontal e mais flácida do que no adulto. Isso significa que qualquer resfriado, qualquer congestão nasal, facilita a subida de secreção e bactérias para o ouvido médio. No adulto esse canal é inclinado e drena bem; na criança pequena, é quase reto. Acumula.
Segundo a diretriz da Academia Americana de Pediatria, a otite média aguda é o diagnóstico infeccioso mais frequente em crianças nos primeiros anos de vida. Aos 3 anos de idade, a maioria das crianças já teve pelo menos um episódio. Algumas têm vários por ano — e os pais dessas crianças conhecem bem o cenário que descrevi no início.
Conforme a criança cresce, a tuba auditiva amadurece, se alonga, se verticaliza. Por isso a frequência das otites diminui com a idade. Mas enquanto essa maturação não acontece, o ouvido médio infantil é vulnerável. Saber disso ajuda os pais a entenderem por que o filho tem otite “de novo” — não é falta de cuidado, não é culpa de ninguém. É anatomia.
Principais causas da dor de ouvido na infância
Nem toda dor de ouvido é otite, embora na infância essa seja a causa mais comum. Quando os pais chegam ao consultório, gosto de investigar com calma para identificar exatamente o que está causando a dor, porque o tratamento muda completamente dependendo da origem. As causas que mais encontro:
- Otite média aguda — infecção do ouvido médio, geralmente precedida por resfriado. Causa dor intensa, pode vir com febre e irritabilidade
- Otite média com efusão — líquido acumulado atrás do tímpano sem infecção ativa. Mais pressão do que dor aguda, mas incomoda
- Otite externa — infecção do canal auditivo, comum após piscina ou uso de cotonete. Dói muito ao puxar a orelha
- Dor reflexa (otalgia referida) — a dor não vem do ouvido, mas de estruturas próximas: garganta inflamada, dente nascendo, articulação da mandíbula. O cérebro “confunde” e a criança aponta o ouvido
- Corpo estranho — criança pequena coloca objetos no ouvido com uma frequência que surpreende até quem está acostumado. Uma conta, um pedaço de brinquedo, um grão. Dói e pode inflamar
- Barotrauma — mudança de pressão, como em voos ou mergulhos. A tuba auditiva não compensa e a criança sente dor
Como saber se a dor de ouvido do meu filho é otite?
Os sinais que mais me orientam no consultório — e que os pais podem observar em casa — são: a criança leva a mão ao ouvido repetidamente, chora mais que o habitual especialmente ao deitar (porque a posição horizontal aumenta a pressão no ouvido médio), tem febre, está irritada sem motivo aparente, e em bebês pode recusar a mamadeira — porque o movimento de sucção pressiona o ouvido e piora a dor. Se nos dias anteriores houve resfriado ou nariz escorrendo, a probabilidade de otite média aguda é alta.
Mas preciso ser honesta: olhar o ouvido por fora não diz nada sobre o que está acontecendo por dentro. Só o exame com otoscópio mostra o tímpano, e é o tímpano que conta a história. Ele pode estar abaulado, vermelho, com secreção atrás — ou pode estar normal, e a dor ser da garganta irradiando para o ouvido. Por isso a avaliação presencial importa tanto.
O que fazer quando seu filho reclama de dor de ouvido
Vou descrever o passo a passo que costumo orientar os pais por telefone quando me ligam preocupados — é o mesmo raciocínio que eu usaria se fosse o meu filho:
Se a criança acorda com dor de ouvido, o primeiro passo é oferecer um analgésico adequado para a idade e o peso — paracetamol ou ibuprofeno. Se a dor alivia e a criança não tem febre alta nem outros sinais de alarme, é seguro agendar consulta para o dia seguinte. Se a dor não cede com analgésico, se a febre está acima de 39°C, ou se a criança está muito prostrada, então é hora de procurar atendimento — pronto-socorro pediátrico ou otorrino de urgência.
Enquanto esperam, podem aplicar uma compressa morna no ouvido (vou explicar como logo abaixo), elevar levemente a cabeceira da cama e manter a criança hidratada — engolir líquidos ajuda a movimentar a tuba auditiva e aliviar a pressão.
O que eu peço que os pais não façam: não pinguem nada dentro do ouvido, não usem cotonete, não deem antibiótico por conta própria. Essas três coisas podem transformar algo simples em algo complicado.
Posso dar remédio para dor de ouvido antes de ir ao médico?
Sim, e eu faço questão de dizer isso aos pais porque muitos têm receio de medicar sem consulta. A revisão Cochrane publicada em 2023, que analisou ensaios clínicos com 411 crianças, confirmou que tanto o paracetamol quanto o ibuprofeno são eficazes no alívio da dor de otite média aguda — com o ibuprofeno mostrando um benefício ligeiramente maior em 48 horas (número necessário para tratar de 6, contra 7 do paracetamol). São medicamentos seguros quando usados na dose correta para o peso da criança.
O que eu reforço: analgésico não é antibiótico. Ele trata a dor, não a causa. E a dor tratada é uma criança que dorme, que come, que se sente melhor — e pais que conseguem respirar até a consulta.
Compressa morna: o alívio caseiro que funciona
De todos os remédios caseiros para dor de ouvido que circulam pela internet, a compressa morna é o único que eu recomendo com tranquilidade. Funciona por um mecanismo simples: o calor suave promove vasodilatação local, o que alivia a sensação de pressão e dor. Não trata a causa, mas dá conforto — e conforto, quando uma criança está chorando às três da manhã, vale muito.
Como fazer da forma correta:
- 1. Molhe um pano limpo (fralda de pano funciona bem) em água morna — não quente
- 2. Teste a temperatura no lado interno do seu pulso antes de aplicar na criança. Se queima no seu pulso, está quente demais
- 3. Aplique sobre a orelha por fora — nunca coloque nada dentro do ouvido
- 4. Mantenha por 10 a 15 minutos. Pode repetir várias vezes
- 5. Se a criança rejeitar, não insista. Algumas preferem deitar do lado do ouvido que dói (a pressão do travesseiro faz papel semelhante)
Compressa quente ou fria para dor de ouvido?
Morna. Nem quente, nem fria. A água deve estar confortavelmente morna — a mesma temperatura que vocês usariam para um banho agradável. Bolsa de gelo não é indicada para dor de ouvido em crianças: o frio pode contrair os vasos e aumentar o desconforto. E compressa quente demais oferece risco de queimadura, especialmente em pele de criança pequena, que é mais fina e sensível.
O que NÃO fazer: azeite, algodão e outros mitos
Essa parte do texto me preocupa quase mais do que as orientações positivas, porque o que circula na internet sobre remédios caseiros para dor de ouvido é, em boa parte, perigoso. Vou ser direta.
Azeite de oliva dentro do ouvido: não recomendo. O argumento popular é que o azeite morno alivia a dor, mas o pequeno alívio que a temperatura causa pode ser obtido com a compressa morna — sem nenhum risco. O problema real é que os pais não têm como saber se o tímpano está íntegro. Se houver perfuração (que pode acontecer durante uma otite e nem sempre causa sintoma visível), qualquer líquido que entre no ouvido médio pode agravar a infecção.
Leite materno no ouvido: mesma lógica. Leite materno tem propriedades imunológicas fantásticas — mas no trato digestivo, não no canal auditivo. Dentro do ouvido, é um meio de cultura para bactérias.
Alho, cebola, camomila: nenhuma dessas substâncias tem evidência de eficácia para dor de ouvido, e todas oferecem risco se entrarem em contato com um tímpano perfurado ou com a pele já inflamada do canal auditivo.
Cotonete: nunca. Nem para “secar” o ouvido, nem para “limpar a cera”, nem para “ver se sai alguma coisa”. O cotonete empurra cera para dentro, pode ferir o canal e, em caso de otite, piora tudo.
Algodão no ouvido: muitos pais colocam algodão para “proteger” o ouvido doente. Não faz mal se for só na entrada, mas também não faz nada. E se for empurrado para dentro, vira corpo estranho.
Pode pingar azeite no ouvido da criança?
Eu sei que essa orientação circula há gerações — a avó da minha paciente frequentemente sugere, e entendo que vem de um lugar de cuidado. Mas minha recomendação, baseada na minha experiência clínica e na ausência de evidência científica a favor, é não pingar azeite, nem nenhuma outra substância caseira, no ouvido do seu filho. O risco de complicação em um ouvido que pode ter o tímpano comprometido não compensa o benefício duvidoso. Compressa morna por fora e analgésico por via oral: essa é a combinação segura.
Quando a dor de ouvido é urgência
A maioria das dores de ouvido infantis se resolve com tratamento adequado e não é emergência. Mas existem situações que exigem atendimento rápido, e eu preciso que os pais saibam reconhecê-las. A revisão de Parri e colaboradores, publicada no European Journal of Pediatrics em 2025, analisou casos de otomastoidite em crianças e confirmou que, embora rara, a complicação mais temida da otite — a mastoidite — exige intervenção hospitalar imediata.
Sinais que indicam urgência:
- 1. Febre acima de 39°C que não cede com antitérmico
- 2. Inchaço ou vermelhidão atrás da orelha — pode indicar mastoidite. Se a orelha parece estar “empurrada para frente”, vá imediatamente
- 3. Secreção saindo do ouvido — pode ser pus, pode ser sangue. Indica possível perfuração do tímpano
- 4. Dor de cabeça intensa com vômitos
- 5. Rigidez de nuca — sinal de alerta para meningite
- 6. Criança muito prostrada — não brinca, não responde, letárgica
- 7. Dor que piora progressivamente mesmo com analgésico em dose adequada
Quero tranquilizar os pais que estão lendo isso com o coração apertado: complicações graves são raras. A maioria absoluta das otites é tratável e tem excelente evolução. Mas é justamente a avaliação precoce que mantém essas complicações raras. Quando os pais trazem a criança no tempo certo, o tratamento resolve. É quando se espera demais — semanas com dor intermitente, automedicação sem orientação — que o risco aumenta.
Dor de ouvido com febre alta: devo ir ao pronto-socorro?
Se a febre está acima de 39°C e a criança não melhora com antitérmico em dose adequada, sim. Mas o que mais me guia para recomendar urgência é o estado geral da criança. Uma febre de 38,5°C em uma criança que está brincando me preocupa menos do que uma febre de 38°C em uma criança que não quer sair do colo e recusa líquidos. Os pais conhecem o filho. Se vocês sentirem que “algo está diferente”, confiem nessa percepção e procurem atendimento.
Como o otorrino investiga a dor de ouvido na criança
Sei que muitos pais ficam ansiosos com a consulta — tanto pela criança quanto pelo que vão descobrir. Quero explicar exatamente o que acontece, para que vocês cheguem preparados e tranquilos.
O exame principal é a otoscopia: uso um aparelho com luz e lente de aumento (o otoscópio) para olhar o tímpano. Leva poucos segundos. Com esse exame consigo ver se o tímpano está vermelho, abaulado (sinal de pus atrás dele), retraído, perfurado, ou se há líquido acumulado sem infecção. Cada achado me leva a uma conduta diferente.
Em muitos casos, completo com a imitanciometria — um exame que mede a mobilidade do tímpano e me diz se há líquido no ouvido médio. É rápido, indolor, e a criança sente apenas uma leve pressão. Se suspeito de perda auditiva associada, peço audiometria infantil — mas isso geralmente fica para um segundo momento, não na urgência.
Também examino o nariz e a garganta, porque na criança tudo está conectado. Uma sinusite pode estar alimentando a otite. Uma adenoide aumentada pode estar bloqueando a tuba auditiva. Gosto de explicar para os pais o que estou vendo, mostrando no otoscópio quando possível — porque quando a família entende o que está acontecendo, o tratamento flui melhor.
A criança precisa ficar parada no exame de ouvido?
O ideal é que fique, mas sei que com crianças pequenas isso nem sempre é possível — e tudo bem. Costumo pedir que o pai ou a mãe segure a criança no colo, de lado, com a cabecinha apoiada. Com bebês, às vezes examino enquanto estão mamando, porque a sucção os distrai. O mais importante é que a criança se sinta segura. No meu consultório, antes de examinar, deixo a criança segurar o otoscópio, mostro como funciona, faço na minha própria mão, depois no bracinho dela. Só quando ela está mais à vontade é que examino o ouvido. Leva um pouquinho mais de tempo, mas a diferença no nível de colaboração é enorme. Medo a gente resolve com paciência — nunca com pressa.
Prevenção: como reduzir os episódios de dor de ouvido
Não existe fórmula mágica para evitar otite, mas existem medidas que reduzem a frequência — e que costumo discutir com as famílias que lidam com episódios recorrentes:
- Amamentação — o leite materno transfere anticorpos que protegem contra infecções. Estudos mostram que bebês amamentados por pelo menos 6 meses têm menos otites
- Lavagem nasal com soro fisiológico — manter o nariz limpo é uma das formas mais eficazes de prevenir otite, porque reduz a quantidade de secreção que pode subir para o ouvido. Recomendo especialmente durante resfriados
- Vacinação em dia — a vacina pneumocócica conjugada reduz significativamente as otites causadas por pneumococo
- Evitar exposição ao tabagismo passivo — a fumaça do cigarro irrita as mucosas e aumenta a predisposição a infecções respiratórias e otites
- Evitar mamadeira deitado — quando o bebê mama deitado na horizontal, o leite pode refluir para a tuba auditiva. Mantenha a cabecinha levemente elevada
- Tratar a rinite e as alergias — a rinite alérgica não tratada mantém o nariz cronicamente congestionado, o que favorece otites
Se a criança tem otites de repetição — três ou mais em seis meses, ou quatro em um ano — é hora de discutir com o otorrino se há indicação de tubo de ventilação. Essa decisão é individualizada e depende de vários fatores: frequência dos episódios, presença de líquido persistente, impacto na audição e no desenvolvimento da fala.
Dor de ouvido em criança pode ser algo grave?
Essa pergunta carrega um peso que eu reconheço, e quero respondê-la de forma honesta. Na grande maioria das vezes — e estou falando de mais de 95% dos casos que vejo no consultório — a dor de ouvido na infância é causada por otite média aguda. Tratável, com bom prognóstico, e que resolve com ou sem antibiótico dependendo da gravidade.
Complicações graves existem, mas são raras. A mastoidite — infecção do osso atrás da orelha — é a mais conhecida, e acontece quando a otite não é tratada adequadamente ou quando a bactéria é particularmente agressiva. A revisão do European Journal of Pediatrics de 2025 confirma que todos os casos de mastoidite em crianças exigiram internação e antibiótico intravenoso, reforçando que é uma condição séria — mas também confirmando que o tratamento precoce da otite é a melhor prevenção.
O que quero que os pais guardem: otite não tratada pode complicar. Otite tratada no tempo certo quase nunca complica. A avaliação precoce é o que faz a diferença entre um episódio que se resolve em dias e uma situação que se arrasta por semanas.
Se seu filho está com dor de ouvido e vocês não sabem por onde começar, minha orientação é simples: analgésico para o alívio imediato, compressa morna para conforto, e consulta com otorrino para entender o que está acontecendo. Esse é o caminho seguro.
Este conteúdo de remédios caseiros para dor de ouvido tem finalidade educativa e não substitui a consulta médica presencial. Cada criança deve ser avaliada individualmente.
Dra. Milene Massucci Bissoli
Otorrinolaringologista — CRM 125007 SP | RQE 57203
Especialização, Doutorado e Foniatria pela USP. Estágio no Massachusetts Eye and Ear Hospital (Harvard). Pesquisadora na University of Sheffield. Membro da ABORL-CCF e da Academia Brasileira de Otorrinolaringologia Pediátrica.
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Fontes
- Lieberthal AS, Carroll AE, Chonmaitree T, et al. The Diagnosis and Management of Acute Otitis Media. Pediatrics. 2013;131(3):e964-e999. PubMed 23439909
- de Sévaux JLH, Damoiseaux RAMJ, van de Pol AC, et al. Paracetamol (acetaminophen) or non-steroidal anti-inflammatory drugs, alone or combined, for pain relief in acute otitis media in children. Cochrane Database Syst Rev. 2023;8(8):CD011534. PubMed 37594020
- Parri N, Bettelli S, Storelli F, et al. Acute otomastoiditis in children: a scoping review on diagnosis and antibiotic regimens. Eur J Pediatr. 2025;184:548. PubMed 40794138
- Ministério da Saúde. Saúde da Criança — Vigilância do Desenvolvimento Infantil. gov.br







