Por Dra. Milene Massucci Bissoli — CRM 125007 SP | RQE 57203
Otorrinolaringologista | Otorrinopediatria e Foniatria
Atraso na fala infantil é uma das queixas que mais recebo no consultório — e uma das que mais geram angústia nos pais. Frases como “o primo da mesma idade já fala tudo e o meu ainda não” ou “na creche disseram que ele está atrasado” aparecem quase toda semana. Entendo essa preocupação. A fala é a janela mais visível do desenvolvimento, e quando ela não vem no tempo esperado, a família toda fica em alerta.
O que costumo explicar logo na primeira consulta é que atraso na fala não é diagnóstico — é um sinal. Um sinal que pode ter causas simples, como falta de estímulo adequado, ou causas que precisam de investigação, como perda auditiva por otites de repetição. O papel do otorrinolaringologista pediátrico nesse cenário é justamente separar o que é variação normal do que precisa de intervenção. E quanto mais cedo essa avaliação acontece, mais eficaz ela é.
O que é considerado atraso na fala
A fala se desenvolve dentro de uma janela de tempo que a literatura chama de marcos do desenvolvimento da linguagem. Quando uma criança não atinge determinados marcos na idade esperada, dizemos que há atraso na fala — ou, mais precisamente, atraso na aquisição da linguagem. Segundo a revisão publicada no American Family Physician em 2023, considera-se atraso quando a criança aos 24 meses fala menos de 50 palavras, tem fala incompreensível ou apresenta déficits identificáveis em testes padronizados para a idade.
Nem todo atraso tem a mesma gravidade. Algumas crianças são os chamados “falantes tardios” — demoram um pouco mais para arrancar mas alcançam os pares até os 3 anos sem nenhuma intervenção. Outras, porém, carregam uma causa subjacente que não se resolve sozinha. É nessa distinção que a avaliação profissional faz diferença.
Marcos do desenvolvimento da fala por idade
Cada faixa etária traz expectativas específicas para a linguagem. O Ministério da Saúde, por meio da Caderneta da Criança, e a literatura internacional convergem em marcos bastante consistentes. Organizei aqui o que costumo usar como referência no consultório:
| Idade | O que se espera | Sinal de alerta |
|---|---|---|
| 0–3 meses | Reage a sons, acalma-se com a voz dos pais, emite sons guturais | Não se assusta com barulhos fortes |
| 4–6 meses | Balbucio (“ba-ba”, “ma-ma” sem significado), vira a cabeça para sons | Ausência de balbucio, não localiza sons |
| 7–9 meses | Balbucio variado, responde ao próprio nome, imita sons | Não responde ao nome, balbucio monótono |
| 12 meses | Pelo menos 2 palavras com significado (“mamã”, “papa”), entende comandos simples | Nenhuma palavra, não aponta, não faz gestos |
| 18 meses | Mínimo de 3 palavras, vocabulário em expansão, aponta para o que quer | Menos de 3 palavras, não compreende ordens simples |
| 24 meses | Frases de 2 palavras (“quero água”), vocabulário de ~50 palavras | Não combina palavras, fala incompreensível |
| 36 meses | Frases de 3–4 palavras, fala compreensível por estranhos em ~75% do tempo | Fala incompreensível fora do núcleo familiar |
Com quantos meses o bebê deveria começar a falar?
As primeiras palavras com significado costumam aparecer entre 10 e 14 meses. Antes disso, o bebê já se comunica — pelo balbucio, pelos gestos, pelo olhar. Esses precursores são tão importantes quanto as palavras em si. Um bebê que aos 9 meses não balbucia e não responde ao próprio nome pode ter uma questão auditiva que precisa ser investigada, mesmo que “ainda seja cedo para falar”. Na minha experiência, os pais que chegam preocupados com o balbucio do bebê raramente estão exagerando.
Sinais de alerta que os pais devem observar
Existem sinais que, quando presentes, justificam avaliação mesmo antes dos marcos clássicos. A revisão sistemática publicada no JAMA em 2024, que analisou 38 estudos com mais de 9.000 crianças, destacou que ferramentas de triagem baseadas no relato dos pais têm sensibilidade entre 88% e 93% para identificar atraso na linguagem expressiva. Ou seja: quando os pais percebem algo diferente, na grande maioria das vezes existe algo a investigar.
Os sinais que costumo orientar as famílias a observar:
- Até 6 meses: não reage a sons ambientais, não sorri em resposta, não emite sons vocais
- Até 12 meses: ausência de balbucio, não faz gestos (dar tchau, apontar), não responde ao nome
- Até 18 meses: nenhuma palavra com significado, não compreende comandos simples (“dá pra mamãe”)
- Até 24 meses: vocabulário menor que 50 palavras, não combina duas palavras, fala incompreensível
- Após 24 meses: fala que só os pais entendem, perda de palavras que já existiam (regressão), dificuldade de interação social
A regressão merece atenção especial. Quando a criança já falava e parou, existe um sinal de alerta importante que precisa de avaliação multidisciplinar — não só otorrinolaringológica, mas também neuropediátrica.
Como saber se meu filho tem atraso na fala?
Compare o desenvolvimento da criança com os marcos da tabela acima, mas sem rigidez excessiva. Cada criança tem seu ritmo. O que diferencia variação normal de atraso real é a consistência: se o atraso é isolado (só a fala, com compreensão e interação social preservadas) e leve, pode ser variação. Se o atraso é amplo (fala, compreensão e interação afetadas), a chance de haver uma causa que exige intervenção é maior. Na dúvida, consulte — a avaliação em si não tem risco nenhum.
O que pode causar atraso na fala
As causas são diversas, e no consultório costumo explicar aos pais que pensamos nelas como uma cadeia: se qualquer elo falha, a fala pode atrasar. O raciocínio que uso na investigação segue uma lógica sequencial.
Se a criança apresenta atraso na fala, o primeiro passo é avaliar a audição — porque se o som não chega bem ao cérebro, a fala não se desenvolve no tempo certo. Se a avaliação auditiva identifica perda condutiva, investigamos otite média com efusão. Se a efusão é persistente por mais de três meses com perda documentada, consideramos a colocação de tubo de ventilação conforme a diretriz da Academia Americana de Otorrinolaringologia. Se a audição está normal mas o atraso persiste, encaminhamos para avaliação fonoaudiológica e, quando necessário, neuropediátrica.
As causas mais frequentes que encontro na prática:
- 1. Perda auditiva — congênita ou adquirida (otite de repetição com efusão)
- 2. Otite média com efusão persistente — líquido no ouvido médio que abafa os sons por semanas ou meses
- 3. Falta de estímulo linguístico — exposição excessiva a telas sem interação verbal, pouca conversa direta com a criança
- 4. Prematuridade — bebês prematuros podem apresentar atraso no desenvolvimento global, incluindo a fala
- 5. Transtorno do espectro autista (TEA) — o atraso na fala pode ser um dos primeiros sinais, geralmente acompanhado de outros
- 6. Alterações neurológicas — paralisia cerebral, síndromes genéticas, malformações do sistema nervoso central
- 7. Língua presa (anquiloglossia) — em casos mais graves, pode dificultar a articulação dos sons
Otite de repetição pode causar atraso na fala?
Essa é uma das perguntas que mais ouço. E a resposta é sim — quando a otite deixa líquido acumulado atrás do tímpano (o que chamamos de otite média com efusão), a criança passa a ouvir como se estivesse debaixo d’água. Essa perda auditiva condutiva, mesmo sendo leve a moderada, acontece justamente na fase em que o cérebro depende de estímulos sonoros claros para organizar a linguagem. A revisão Cochrane de 2023 avaliou os efeitos dos tubos de ventilação nesse cenário e encontrou que, embora o benefício auditivo a longo prazo seja modesto, a resolução precoce da efusão permite que a criança volte a receber estímulos sonoros adequados durante o período crítico da aquisição da linguagem.
No consultório, quando identifico uma criança com otites de repetição que já apresenta impacto na fala, costumo discutir com os pais a possibilidade do tubo de ventilação. Não é uma decisão automática — depende do tempo de efusão, do grau de perda auditiva e do impacto que estamos observando no desenvolvimento da criança.
O papel do otorrino na investigação do atraso na fala
Muitos pais se surpreendem quando sugiro que a criança com atraso na fala passe primeiro pelo otorrino antes do fonoaudiólogo. A razão é direta: precisamos garantir que a audição está íntegra antes de trabalhar a fala em si. De nada adianta iniciar fonoterapia se a criança tem uma efusão no ouvido que ninguém diagnosticou.
Na minha avaliação, examino o ouvido com microscópio, verifico o tímpano, avalio se há sinais de efusão, e solicito exames auditivos adequados para a idade. Em crianças muito pequenas, uso as emissões otoacústicas e o BERA — exames objetivos que não dependem da colaboração do paciente. Em crianças maiores, a audiometria infantil com reforço visual ou condicionada já dá uma informação bastante precisa.
Além da audição, avalio as vias aéreas superiores: adenoides aumentadas podem causar respiração bucal crônica, que também interfere na articulação da fala e na qualidade do sono — e sono ruim compromete o desenvolvimento cognitivo como um todo.
Qual exame detecta problema de audição em criança?
Depende da idade. Em recém-nascidos e lactentes, o teste da orelhinha (emissões otoacústicas) é o primeiro screening — obrigatório por lei no Brasil. Se há dúvida, o BERA (potencial evocado auditivo do tronco encefálico) avalia a via auditiva de forma mais detalhada. A partir de 6-8 meses, a audiometria com reforço visual permite testar diferentes frequências. A imitanciometria complementa: ela mede a mobilidade do tímpano e identifica se há líquido no ouvido médio, sendo fundamental para o diagnóstico de otite média com efusão. Esses exames são indolores e seguros.
Quando buscar ajuda profissional
Costumo dizer aos pais que a melhor hora de buscar avaliação é quando a dúvida aparece. A revisão do JAMA de 2024 mostrou que não existe estudo comprovando benefício de esperar para ver quando os pais já identificaram uma preocupação. Os instrumentos de triagem baseados no relato dos pais, como o MacArthur-Bates e o ASQ, têm sensibilidade alta — entre 88% e 93%. Se vocês como pais percebem algo diferente, confiem nessa percepção.
Na prática, oriento que a família procure avaliação nas seguintes situações:
- 1. A criança não fala nenhuma palavra aos 12 meses
- 2. Aos 18 meses, tem menos de 3 palavras ou não compreende comandos simples
- 3. Aos 24 meses, não forma frases de duas palavras
- 4. A fala é incompreensível para pessoas de fora da família após os 3 anos
- 5. Houve regressão — a criança falava e parou
- 6. Há histórico de otites de repetição ou perda auditiva na família
- 7. A criança tem fatores de risco: prematuridade, internação neonatal prolongada, síndromes genéticas
Com que idade devo me preocupar se meu filho não fala?
Não existe uma idade mágica. O que existe são marcos que funcionam como balizas. Se aos 12 meses não há nenhuma palavra, isso já merece atenção. Se aos 24 meses não há combinação de palavras, a investigação é recomendada. Mas repito: qualquer preocupação dos pais, em qualquer idade, é razão suficiente para agendar uma avaliação. A pior coisa que pode acontecer é ouvir que está tudo bem. E, no cenário oposto, o ganho de tempo é enorme.
Criança que demora para falar pode ter autismo?
Essa pergunta carrega um peso enorme para as famílias, e preciso abordá-la com cuidado. O atraso na fala é, sim, um dos sinais possíveis do transtorno do espectro autista (TEA). Mas isoladamente ele não define diagnóstico. No TEA, o atraso na linguagem costuma vir acompanhado de outras características: dificuldade de contato visual, pouco interesse em interação social, brincadeiras repetitivas, rigidez com rotinas.
O que faço no consultório quando percebo esses sinais associados é encaminhar para avaliação multidisciplinar — neuropediatra, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional. Não é papel do otorrino diagnosticar autismo, mas faz parte do nosso trabalho identificar os sinais e direcionar a família. E, antes de tudo, precisamos descartar perda auditiva — porque uma criança que não ouve bem pode apresentar comportamentos que se confundem com TEA, como não responder ao nome ou não reagir quando chamada.
O que esperar da avaliação e do tratamento
O tratamento do atraso na fala depende inteiramente da causa identificada. Não existe receita única. Na minha prática, o caminho costuma seguir estas etapas:
- 1. Avaliação auditiva completa — confirmar que a audição está íntegra
- 2. Exame otorrinolaringológico — verificar ouvidos, nariz, garganta, adenoides
- 3. Tratamento da causa, se identificada — tubo de ventilação para efusão persistente, por exemplo
- 4. Encaminhamento para fonoterapia — com audição normal ou corrigida, o trabalho fonoaudiológico pode começar
- 5. Orientação aos pais sobre estimulação — porque o trabalho em casa é tão importante quanto as sessões
- 6. Acompanhamento longitudinal — reavaliação a cada 3-6 meses para monitorar evolução
A meta-análise publicada no Journal of Speech, Language, and Hearing Research em 2025, que reuniu 46 estudos com 1.590 crianças, mostrou que intervenções naturalísticas com participação ativa dos pais produzem resultados melhores do que intervenções conduzidas exclusivamente por profissionais. Ou seja: os pais são parte essencial do tratamento, não espectadores.
Atraso na fala tem tratamento?
Na grande maioria dos casos, sim. E o prognóstico é tanto melhor quanto mais cedo a intervenção começa. O Ministério da Saúde destaca que os primeiros 1.000 dias de vida são o período de maior plasticidade cerebral — o cérebro está mais receptivo a aprender, a criar conexões, a se reorganizar. Perder essa janela não significa que tudo está perdido, mas significa que o caminho fica mais longo. É por isso que insisto: não esperar para ver. Avaliar, identificar, intervir.
Estimulação da fala em casa — o que os pais podem fazer
Além do acompanhamento profissional, os pais têm um papel que nenhum terapeuta substitui: o convívio diário. Algumas orientações que sempre repasso no consultório:
- Converse de frente para a criança — ela precisa ver seu rosto, seus lábios, suas expressões. A comunicação é visual e auditiva ao mesmo tempo
- Nomeie tudo — durante o banho, a refeição, o passeio. “Olha o cachorro”, “vamos colocar a camiseta azul”. Quanto mais palavras a criança ouve em contexto real, mais rápido o vocabulário cresce
- Leia em voz alta — livros com figuras grandes e poucas palavras por página são ideais para crianças pequenas. Não precisa seguir o texto ao pé da letra — invente, pergunte, aponte
- Reduza o tempo de tela passiva — assistir a vídeos não substitui interação. A linguagem se desenvolve na troca, não na recepção passiva
- Não antecipe — se a criança aponta para o copo, em vez de entregar imediatamente, diga “você quer água?” e espere. Crie pequenas situações que motivem a criança a tentar se expressar
- Brinque junto — brincadeiras de faz de conta, cantigas com gestos, jogos de imitação são estímulos poderosos para a linguagem
- Evite corrigir o tempo todo — se a criança diz “qué ága”, responda naturalmente “ah, você quer água? Vou pegar!” em vez de “não é assim, repete direito”. A correção vem pela repetição natural, não pela pressão
A importância da intervenção precoce
Não canso de repetir: tempo é o recurso mais valioso quando falamos de desenvolvimento infantil. A cada mês que passa sem intervenção adequada, a distância entre a criança com atraso e seus pares pode aumentar — e as consequências não se limitam à fala. A revisão do American Family Physician destaca que o atraso na linguagem não tratado pode comprometer o desenvolvimento social, emocional e acadêmico a longo prazo. Crianças que chegam à escola sem linguagem oral adequada têm mais dificuldade de alfabetização, de socialização e de regulação emocional.
A boa notícia é que a intervenção precoce funciona. Os dados são consistentes: quando identificamos a causa, tratamos o que é tratável e iniciamos estimulação adequada dentro da janela de plasticidade cerebral máxima, a maioria das crianças evolui de forma significativa. Algumas alcançam o desenvolvimento esperado por completo. Outras precisam de acompanhamento mais prolongado, mas ainda assim apresentam ganhos importantes.
Se você chegou até aqui com alguma dúvida sobre o desenvolvimento da fala do seu filho, minha orientação é: agende uma avaliação. A investigação do atraso na fala é o primeiro passo — e pode fazer toda a diferença.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a consulta médica presencial. Cada criança deve ser avaliada individualmente.
Dra. Milene Massucci Bissoli
Otorrinolaringologista — CRM 125007 SP | RQE 57203
Especialização, Doutorado e Foniatria pela USP. Estágio no Massachusetts Eye and Ear Hospital (Harvard). Pesquisadora na University of Sheffield. Membro da ABORL-CCF e da Academia Brasileira de Otorrinolaringologia Pediátrica.
Agende sua consulta | Otorrino para Crianças e Adolescentes
Fontes
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