Quero dividir aqui os principais pontos dessa conversa. Minha intenção – como otorrino particular – é que este conteúdo seja útil não apenas para profissionais da saúde, mas, principalmente, para pais e cuidadores que estejam enfrentando esse momento delicado.
Por que falar sobre cirurgia com crianças pequenas?
Durante a prática clínica, é muito comum perceber o quanto as crianças sentem medo antes de uma cirurgia — medo do desconhecido, da separação dos pais, da dor, dos “tios de máscara” (como muitos chamam a equipe médica).
Estudos mostram que até 75% das crianças apresentam ansiedade significativa antes de procedimentos cirúrgicos. E essa ansiedade não é apenas emocional: ela pode afetar diretamente a recuperação, provocando mais dor, maior uso de sedativos e até um retorno mais lento para casa.
Mas o que mais me chamou a atenção ao estudar esse tema é que a preparação — quando feita de forma adequada — muda completamente o cenário.
O que a ciência tem nos mostrado?
A literatura médica é clara: preparar a criança (e sua família) para a cirurgia não é um detalhe, é parte do tratamento.
E isso deve começar antes mesmo de chegarmos ao centro cirúrgico. O preparo deve envolver:
• Informação adequada à idade da criança;
• Espaço para que ela expresse seus sentimentos e dúvidas;
• E, acima de tudo, um vínculo de confiança com a equipe de saúde.
Quando os pais são envolvidos, também ficam menos ansiosos — e isso fortalece o apoio emocional para a criança.
Cada idade, uma abordagem diferente para conversar
Uma das perguntas que mais angustia os pais nas consultas pré-operatórias é: “Mas como conversar com a criança sem assustá-la?”
E não tem uma resposta padrão, primeiro porque depende da idade. O desenvolvimento neuropsicomotor muda muito nos primeiros anos de vida, e precisamos respeitar isso.
De 0 a 2 anos – o mundo é feito de sensações
Nessa fase, os bebês não compreendem ainda o que é uma cirurgia. Mas eles sentem — e muito. Sentem quando a mãe está ansiosa, quando o ambiente muda, quando há desconforto.
O foco aqui não é explicar, mas proteger.
• Minimizar o tempo de separação dos pais;
• Manter objetos de transição (um paninho, um bichinho querido);
• Evitar jejum prolongado e reduzir estímulos desagradáveis.
• Técnicas de distração, como músicas ou brinquedos familiares, são muito bem-vindas.
De 2 a 7 anos – onde a fantasia domina
Aqui, o universo da criança mistura realidade com imaginação. É muito comum ela criar histórias fantasiosas sobre o que vai acontecer — e por isso, nossa responsabilidade ao explicar aumenta.
• Use linguagem simples e concreta.
• Evite palavras como “corte”, “agulha” ou “anestesia” — elas assustam.
• Fale um dia antes, com frases curtas, e esteja disponível para perguntas.
• Livros infantis com desenhos, brincadeiras com bonecos, “jogo do hospital” com máscaras e curativos — tudo isso ajuda.
Mas, sobretudo: não minta. Se vai haver algum desconforto, diga que pode “doer um pouquinho”, mas que a mamãe ou o papai estarão por perto, e que logo vai passar.
Um olhar para os pais quando o assunto é cirurgia em crianças pequenas
Durante o FORL, antes mesmo da aula, enquanto tomávamos um café, um colega comentou algo que me tocou muito: “Às vezes, quem mais precisa de preparo é o pai.”
E é verdade. O ambiente hospitalar, mesmo para nós, profissionais, pode ser frio e impessoal. Para os pais, é ainda mais difícil. Por isso, sempre que possível, oriento as famílias a:
• Fazer perguntas até se sentirem seguras;
• Levar para o hospital um objeto familiar da criança;
• Estar presente na indução anestésica, se a instituição permitir;
• E cuidar de si também — uma criança sente quando seu adulto está em sofrimento.
Ferramentas que ajudam
Além da conversa sobre cirurgia em crianças pequenas, gosto muito de recomendar alguns recursos que tornam essa experiência mais leve para a criança:
• Livros infantis sobre o tema hospitalar;
• Brinquedos de médico, que ajudam a criança a “brincar de cuidar”;
• Vídeos educativos e lúdicos a depender da idade da criança;
• Desenhos ou histórias criadas pela própria criança.
Também vejo com bons olhos o uso de técnicas de relaxamento com crianças maiores, e, quando disponível, o apoio de profissionais especializados em humanização hospitalar ou “Child Life Services”, que oferecem suporte emocional com muita sensibilidade.
Uma conversa que precisa acontecer
Se há algo que eu gostaria que ficasse claro, é: não devemos evitar o assunto com a criança.
A tentativa de “poupar” pode, na verdade, deixá-la mais confusa e assustada.
Falar com franqueza, acolher sentimentos (mesmo que de medo ou raiva), mostrar que ela não está sozinha — tudo isso constrói uma experiência mais segura e humana.
Conversar sobre Cirurgia em crianças pequenas é, acima de tudo, um ato de respeito. Respeito à infância, à sensibilidade, à inteligência emocional que já está ali, mesmo em tão pouca idade. Se eu puder deixar uma mensagem final a quem está lendo este texto — seja um profissional, um pai ou uma mãe — é essa:
A forma como cuidamos da criança antes da cirurgia pode impactar profundamente sua vivência hospitalar e até sua saúde emocional no futuro.
Referências:
Role of information and preparation for improvement of pediatric perioperative care – Gunilla Loof; Per-Arne Lonngvist – Paediatr Anaesth. 2002 Mar







