A cirurgia de amígdala em criança, ou amigdalectomia, é um dos procedimentos mais comuns na infância. Pode ser realizada em qualquer idade, a depender do conjunto de sintomas, e muitas vezes é combinada com a adenoidectomia.
Esta página explica quando a cirurgia é indicada, quando o melhor caminho é esperar, e o que acontece antes e depois. Se a decisão de operar já foi tomada e a dúvida é sobre a técnica, a página sobre a amigdalectomia intracapsular trata disso em detalhe.
Para que servem as amígdalas
As amígdalas ficam no fundo da garganta e fazem parte do anel de tecido linfático conhecido como anel de Waldeyer. Elas participam da defesa do organismo, principalmente em crianças, cujo sistema imunológico ainda está aprendendo a reconhecer os agentes infecciosos.
Funcionam como barreira de entrada para germes que chegam pela boca e pelo nariz, produzem anticorpos, e ajudam o organismo a guardar memória dos germes já encontrados, o que acelera a resposta numa exposição seguinte.
Por isso a retirada nunca é banal. Em alguns casos, porém, a amígdala deixa de proteger e passa a ser o próprio foco de infecção, ou cresce a ponto de obstruir a respiração. É aí que a cirurgia entra na conversa.
Quando a cirurgia é indicada
São dois grupos de indicação, independentes um do outro. A criança pode ter os dois, e o mais comum é ter um só.
Vale dizer de saída: uma criança que nunca teve amigdalite pode ter indicação cirúrgica, e uma criança que teve muitas amigdalites pode não ter, se a amígdala for pequena e o sono for tranquilo. O que decide é o conjunto, não um fator isolado.
Amigdalite de repetição
Aqui a conta importa, e ela tem número. A referência usada internacionalmente é de sete episódios em um ano, ou cinco por ano em dois anos seguidos, ou três por ano em três anos seguidos.
Cada episódio precisa de registro: febre, placas na garganta, gânglio aumentado no pescoço ou cultura positiva. Guarde atestados, receitas e resultados de exame. É essa documentação que fecha a indicação, e é o que costuma faltar quando a família chega ao consultório.
Ronco e apneia obstrutiva do sono
Roncar todo dia não é comum em criança, e ronco não é a mesma coisa que apneia. Quando as amígdalas obstruem a passagem de ar durante o sono, o efeito aparece longe da garganta: sono agitado, xixi na cama, irritação, dificuldade de atenção na escola e, em quadros longos, mudança no crescimento da face.
A avaliação parte do exame e da história. A polissonografia entra principalmente quando a criança tem obesidade, síndrome de Down, alteração craniofacial ou doença neuromuscular, ou quando o exame da garganta não explica o ronco.
Quando esperar é melhor que operar
No caso de amigdalites de repetição, acompanhar costuma render mais que operar quando o número de episódios é menor que o corte internacional, porque a frequência das amigdalites tende a cair sozinha com a idade. Nesse cenário, a conduta é registrar cada episódio e reavaliar, em vez de marcar cirurgia.
A cirurgia pode entrar antes da conta fechar em situações específicas, como abscesso ao redor da amígdala. Isso é avaliado caso a caso.
Já no caso de ronco e distúrbio respiratório do sono, a avaliação é mais detalhada, e importa muito saber a frequência e a intensidade dos sintomas. Uma dica: se possível, leve à consulta vídeos curtos da criança dormindo, em dias bons e em dias ruins. Isso ajuda muito na avaliação clínica.
Idade muda o plano
Não existe idade mínima para operar. A cirurgia é feita de crianças muito pequenas até a adolescência, e o que muda com a idade é a preparação. Crianças menores de 2 anos podem precisar passar a primeira noite internadas em monitorização, sem alta no mesmo dia.
Existe um mito de que não se operam crianças muito pequenas, e boa parte dele vem do medo do sangramento. A idade entra na conversa sobre qual técnica usar, não sobre operar ou não.
Crianças com obesidade, síndrome de Down, alteração craniofacial ou doença neuromuscular também exigem cuidado redobrado no pós-operatório imediato, qualquer que seja a técnica. Isso é discutido caso a caso, na consulta.
Como é a cirurgia
A criança fica sob anestesia geral, por segurança. A cirurgia isolada de amígdalas dura de 15 a 30 minutos, e o tempo total de centro cirúrgico é maior quando há outro procedimento associado, como a adenoidectomia ou a colocação de tubos de ventilação.
Existem duas técnicas. Na tradicional, a amígdala é retirada inteira, com corte e descolamento. Na intracapsular, o tecido é raspado por dentro e a cápsula que o recobre permanece no lugar. As duas alcançam o objetivo, que é ganhar espaço na respiração ou retirar o tecido doente. A página sobre a amigdalectomia intracapsular compara as duas em detalhe, com o que cada uma entrega e o que cobra em troca.
Crianças com alteração de coagulação
Quando a criança tem uma doença conhecida que afeta a coagulação, a escolha da técnica pesa mais que o normal. A intracapsular é bem mais segura nesses casos, porque a cápsula preservada continua cobrindo a musculatura e os vasos da garganta durante a cicatrização, e é justamente aí que mora o risco de sangramento.
Se o seu filho tem diagnóstico de alteração de coagulação, ou histórico de sangramento fácil na família, me conte na primeira consulta. Isso muda o planejamento.
Antes da cirurgia
Na semana que antecede o procedimento, nenhum medicamento deve ser dado sem o meu conhecimento. De resto, vida normal.
Depois da cirurgia: alimentação e rotina
Independente da técnica, fica uma lesão na região por onde a criança engole e saliva. A alimentação é o que mais muda nos primeiros dias.
Com a técnica tradicional, a restrição é maior: alimentos pastosos por três a sete dias, para não traumatizar a área que foi cortada. Com a raspagem, a volta à alimentação normal é mais rápida, e ainda assim pede-se cuidado com a temperatura.
Em ambas, o alimento não pode ser quente. Temperatura ambiente ou gelado, que ajuda a desinchar pelo mesmo motivo que se coloca gelo num machucado. Sorvete tem lugar aqui, e não é só afago.
O fator que mais influencia a recuperação é a hidratação. Criança que bebe líquido se recupera mais rápido, e boa parte dos problemas do pós-operatório começa quando ela para de beber.
Sobre atividade física: nada de correr, parquinho ou bola por pelo menos uma semana, para não aumentar o fluxo sanguíneo na região. O retorno é marcado depois de uma semana, e é nele que eu libero a volta à escola. Algumas crianças precisam de mais tempo, em geral as que sentem mais dor.
Sobre a dor, o que esperar
A garganta vai doer. Com a técnica de raspagem a dor costuma ser menor e mais curta, e com a tradicional ela é mais intensa nos primeiros dias. Em nenhuma das duas ela é ausente.
A prescrição de analgésicos é individualizada. Na técnica tradicional os medicamentos são prescritos de horário, e muitas vezes é necessário intercalar medicamentos com mecanismos de ação complementares. Na técnica intracapsular a necessidade de medicamento é significativamente menor.
O que observar em casa
Ligue para a clínica ou vá ao pronto-socorro se a criança:
- Cuspir ou vomitar sangue vivo, mesmo em pouca quantidade e mesmo que pare sozinho. Sangue engolido volta escuro, com aspecto de borra de café, e conta do mesmo jeito.
- Passar mais de 2 horas acordada sem aceitar líquido, ou urinar bem menos que o habitual, ou ficar com a boca seca e sem lágrima ao chorar.
- Tiver febre acima de 38,5 graus que não cede com os medicamentos prescritos.
- Respirar com esforço, ficar muito prostrada, ou com os lábios arroxeados.
- Tiver dor que não melhora mesmo com a medicação de resgate.
O sangramento mais tardio costuma aparecer por volta do quinto dia, quando a criança já está bem e a família já baixou a guarda.
Sangramento é a complicação que exige pressa. Não espere amanhecer nem espere passar.
A escolha da técnica é feita na consulta
Decidida a cirurgia, a escolha entre retirar a amígdala inteira ou raspar depende do motivo da indicação, da idade e do histórico da criança. Explico as duas na consulta, com as vantagens e o que cada uma cobra em troca, e a decisão é conjunta.
No meu canal no YouTube preparei uma série de vídeos sobre o tema, além de materiais que respondem às dúvidas mais frequentes.
Se o seu filho tem indicação de cirurgia de amígdala, ou você ainda está em dúvida se é o caso, agende uma consulta.









